A revolução no ensino

Publicado em em Pesquiseria.

 

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Dennis Giacometti

O termo REVOLUÇÃO, no título, não é força de expressão. O ensino, nos dias de hoje, chega a ser humilhante para todos os que vivenciam o universo educacional. Na maioria dos casos, a relação entre professores e a direção das instituições; entre os professores e seus pares; e entre professores e alunos, ultrapassou a fronteira entre o amor e o ódio. Hoje, o desprezo marca essas relações.

E a causa é simples. Desde Bolonha, século XII, o princípio que norteia a maioria desses “educadores” é o de enfiar, goela adentro, um conjunto de informações que, na perspectiva de uma vã ideologia, condicionarão o aluno à rota desejada por um determinado grupo de idealizadores.

E quais as consequências?! Grosso modo, as consequências se desdobram em duas linhas de força. A primeira delas é uma luta sem tréguas entre a direção das universidades e o corpo docente, por meio da qual se pretende instaurar as ideias dominantes bem como a metodologia de ensino a elas correspondentes. Na segunda, temos o corpo discente, sonhando em conquistar um lugar no mundo – o que só será atingido via submissão às regras da “prisão”, em referência à concepção do filósofo francês Michel Foucault (1926 – 1984) em seu livro Vigiar e punir: nascimento da prisão, que joga luzes sobre a “formação do saber na sociedade moderna”.

E chegamos ao século XXI do mesmo jeitinho, praticamente. O resultado é aquele que constatamos no estudo Projeto 30: apenas  22% dos jovens mencionaram a faculdade/universidade como uma fonte ímpar de conhecimento!! Ou seja, segundo os brasileiros com 30 anos, o ensino superior pouco, ou nada, ajudou na formação!

Temos um ensino que enquadra, que obriga a decorar – não a pensar. Um ensino que nivela as relações interpessoais por baixo, pois não conhece as virtudes, tampouco as limitações de cada ser humano considerado. Não enxerga o aluno – palavra que se origina do verbo latino “alo”, aquele que foi nutrido. Esse ensino  considera o “aluno” um número; interpreta-o como sendo prisioneiro de si próprio, pois em verdade ele não sabe o que quer. Esse desprezo pelo aluno é decorrente da crença, por parte da instituição, de que a sua real função é latu sensu, enquadrar os alunos. E aquele que necessita ser nutrido, vive a angústia de realmente não conhecer a si mesmo; a angústia, a frustração de estar conectado a tudo e a todos, menos a si próprio!

A maioria diz que se autoconhece, mas na verdade é um autoconhecimento produto das experiências que teve ao longo da vida. Portanto, “sei que gosto disso e não daquilo, sou mais assim do que assado” – e por aí vai, sem de fato conseguir discorrer sobre a própria natureza, potencialidades, atributos e limitações individuais… Essa ausência de uma identidade única, sabemos, é mal alicerçada  na infância, no seio da família. Neste aspecto, Sigmund Freud nos auxilia na compreensão da formação da neurose, que se realiza na pequena tríade: a raiva, o medo e a culpa.

O mestre da Psicanálise explica que os pais são responsáveis por buscar equilíbrio nesta formação. Mas, infelizmente, nos dias de hoje estamos cada vez mais longe disso, uma vez que pouco tempo possuímos para dedicar aos filhos. Quando surge a disponibilidade, dedicamos um tempo cheios de culpa de tal forma que, na verdade, fazemos o caminho inverso: tentando aplacar a raiva, o medo e a culpa de nossos filhos não deixando que “esse sofrimento” se realize – uma tentativa de “protegê-los”…

Muitas vezes, segundo Freud, isso acaba em perversão e desvios, que culminam em um comportamento agressivo  por parte  dessas crianças em relação não só aos pais. Assim, esse adolescente se desenvolve em desequilíbrio. Pressionado pela família, pelo ensino e por amigos acaba, na maioria dos casos, não sendo autor da sua própria vida. Daí as escolhas mal feitas terminam por serem dominantes ao longo dos primeiros trinta anos!

O Censo da Educação Superior – relatório do Ministério da Educação e Cultura (MEC), divulgado em setembro de 2014 –, informa que em 2014, 1 milhão  de  alunos se formaram, enquanto 1,2 milhão de universitários trancaram as matrículas! Um inacreditável prejuízo: de tempo, de energia e de dinheiro. Alguns poderiam dizer: “foi essencialmente resultado da crise econômica?!”. De jeito nenhum. Em 2013, a crise estava apenas se avolumando, deixando o impacto maior para os anos seguintes.

Grosso modo, as desistências tiveram a ver com escolhas mal feitas: da profissão, da faculdade a qual, na maioria dos casos, conseguiu criar um universo de insegurança – e até de raiva, por parte dos alunos pela matéria, não pelo conteúdo, mas principalmente pela metodologia. Aliás, metodologia fundamentada pelo princípio “goela abaixo”. Ou ainda, pela quantidade de matérias e de conteúdos estabelecidos pelo MEC em detrimento da qualidade – ação que é pautada pelo desrespeito à natureza de cada indivíduo, sacrificando assim as riquezas que cada um possui dentro de si.

Esse “método” do MEC, que engessa as instituições, é sustentado por uma estratégia  de enfrentamento desses jovens guerreiros. Assim, todas as práticas são direcionadas para o enquadramento do aluno, voltadas para a punição. Na verdade, para a desconstrução, ou seja, para a formação de um  “culto ao ódio pelo conhecimento”. Essa luta quase explícita dá origem ao desprezo já mencionado – e à falta total de respeito entre as partes!

O que era para ser uma fase riquíssima de inspiração, de provocação construtiva, de retirar de cada qual as melhores potencialidades para deixar um legado de paixão pelo trabalho ao conhecimento que estamos elaborando – por meio de métodos que cada vez mais levam ao trabalho coparticipativo, que diminuam as distâncias entre a teoria e a prática, na vida contemporânea –, na verdade, atualmente, segue o caminho oposto: a mediocridade.

Concluindo, esses jovens adultos, em sua maioria sem um projeto pessoal, necessitam urgentemente se reinventar… Felizmente, segundo dados do Projeto 30, 28% estão pensando nisso, apesar do custo imenso para eles e para a sociedade. Surge aqui, portanto, um espaço significativo para a construção de um Projeto de Educação para esse nosso triste Brasil. A começar por projetos na área vocacional, os quais deveriam auxiliar nossos adolescentes a pensarem e a refletirem sobre si próprios e sobre as próprias tendências em pleno século XXI. Uma imersão de meses, profunda e desafiadora.

Eles viverão mais de cem anos, com certeza. Então, por que não investir um ano no autoconhecimento? Torná-los, dessa forma, apaixonados pelo que está por ser realizado… Essa é a missão!

 

*Dennis Giacometti é presidente da Giacometti Comunicação e da Zhuo – Gestão, Inovação e Estratégia de Marca. Formado em Arquitetura, trabalha há mais de três décadas como publicitário e consultor nas áreas de Planejamento de Comunicação e Marketing. O executivo desenvolveu métodos de abordagem estratégica em Gestão, Inovação e Estratégia de Marca; trabalhou na área de Planejamento da MPM Casa Branca, Castello Branco e Associados (CBBA) e Guimarães & Giacometti; foi vice-presidente de Merchandising da Rede Globo (Apoio) e diretor de Planejamento da Futura Scali MacCabe & Sloves.

 

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