Contos de um violeiro afinado com seu tempo

Publicado em em Decio Zylbersztajn.

Decio Zylbersztajn, professor da USP, lança livro de contos dia de 10 de junho, às 19 horas,  na Casa das Rosas, em São Paulo

Décio Zylbersztajna (64)

O escritor, violeiro e professor universitário Decio Zylbersztajn lança dia 10 de junho, em São Paulo, o livro Como são cativantes os jardins de Berlim, publicado pela Editora Reformatório, que reúne onze contos, um deles — Puro Sangue Árabe — premiado no Concurso Antares de Literatura de 2013. A obra representa um movimento decisivo do autor na direção de uma vocação artística que não foi arrefecida por sua trajetória nos meios acadêmicos nem pelos diversos livros e artigos científicos sobre agronegócio que escreveu.

Vale advertir, sobretudo às pessoas mais familiarizadas com a vida acadêmica de Décio e seu gosto pela viola caipira, que os contos reunidos nesse primeiro livro de ficção não se restringem, como se poderia supor, ao universo rural.  Boa parte deles são histórias de personagens que se entrelaçam na agitação de grandes cidades, como é o caso do conto de abertura do livro, cujo cenário é a Berlim atual, marcada por problemas que dificultam a interação entre moradores da cidade e pessoas vindas do leste europeu.

Nascido na São Paulo do pós-guerra, no início da segunda metade do século XX, Decio morou no bairro do Bom Retiro, estudou em escola pública e teve bons professores que inspiraram seu interesse pela ciência e pelas artes. Depois fez Agronomia (e pós-graduação) em Piracicaba (SP), na Esalq. Aí vieram o doutorado e o pós-doutorado nas universidades da Carolina do Norte e Berkeley, nos EUA, a carreira na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e o convite para ser professor visitante nas universidades da Califórnia, Wageningen (Holanda), Perugia e Benevento (Itália).

Desde os tempos em que era estudante em Piracicaba, apaixonou-se pela viola, pela música e pela cultura caipiras, além de conviver com muitas pessoas ligadas ao mundo rural, que passaram a fazer parte de suas relações de amizade e do seu cotidiano.  Essa vivência se acentuou quando Decio e sua mulher, Rosemarie, também violeira, criaram o Duo Vereda Violeira e começaram a organizar “saraus de viola, poesias e causos“, como relata o jurista e violeiro José Afonso da Silva no texto de apresentação dos contos de Decio.

Para Silva, o conto O Milagre de São Gonçalo reflete essa vivência e pode ser considerado uma projeção desses saraus. Como músico, diz ele, Decio está, “consciente ou inconscientemente, impregnado das noções de movimento, de tempo, de andamento, de ritmo. Seus contos têm ritmo tranquilo como as águas de um rio de planície que se encaminham para o remanso. Como músico sabe quando deve acelerar, frear, florear, pontear, o fluxo narrativo”… “Decio não imita, segue seu próprio caminho”.

A guerra do Vietnã e a figura do escritor e monge trapista Thomas Merton inspiram outro  conto, Silêncio Cisterciense, relembrando um tempo em que a luta pela paz era considerada subversiva pelos falcões.

Ao abrir o livro, talvez para revelar ao leitor sua motivação, Decio coloca em epígrafe uma reflexão do escritor e físico argentino Ernesto Sabato: …a literatura não é um passatempo nem uma evasão, mas uma maneira – talvez a mais completa e profunda – de examinar a condição humana. E, a menos que neguemos a realidade a um amor ou a uma loucura, devemos concluir que o conhecimento de vastos territórios da realidade está reservado para a arte e somente para ela.

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Trechos

Existem jardins que nos contam histórias. Muitas pessoas ajustam o espaço, as plantas, e os caminhos, ao longo do tempo. Ninguém os planeja, mas em algum momento um conjunto harmônico acaba sendo criado. Estes são os jardins que mais me atraem. São como as nossas vidas. (“Como são cativantes os jardins de Berlim”).

Inquieta ficava a égua tinhosa que ninguém conseguira ainda montar. Tarquínio, cabeça baixa na sombra do chapéu de couro, pensava no jeito e tempo certo para dar o bote. Jogava o arreio por cima do lombo e tentava se aproximar. – Sem esperança…– pensava o peão. A égua fazia tremer o pelo e derrubava o arreio sem se curvar. Tarquínio tentava e tentava, mas a égua não vergava. Era dura que nem uma rocha do espigão da Serra do Espinhaço. (“Puro Sangue Árabe”)

 A imagem do santo estava embrulhada em panos finos, ainda com cheiro da lavanda que a mãe usava. Última saiu enxugando as mãos e ajeitou a saia sobre o corpo torneado. Debaixo do sol quente, sua pele de jambo não sentia o calor. Os cabelos pretos, que viviam caídos em desalinho, cobrindo parte do seu rosto, faziam com que levasse frequentemente os dois braços para prender o cabelo à nuca, deixando que seus seios marcassem, na blusa, uma silhueta sinuosa. (O Milagre de São Gonçalo”)

Giulietta entrou no bistrô do cineclube e ficou espantada. Examinou o ambiente detidamente. Era cheio de detalhes; no chão, nas paredes e no teto, tudo decorado com fotos imensas de atores e diretores de cinema. As fotografias plastificadas serviam de piso. Era sensacional pisar nas imagens dos seus ídolos. Ao redor das mesas havia projetores antigos – tecnologia ultrapassada – que compunham um ambiente à moda de um estúdio de filmagens, propositalmente decadente. A iluminação era feita por meio dos refletores adaptados, que se mostravam ainda funcionais. Já tiveram a sua utilidade nos antigos estúdios de gravação e agora faziam outro papel. (Não Existe Mulher Como Giulietta!”)

Para saber mais e ler parte do livro, acesse o site http://sidengo.com/cativantesjardins

Visite também o site da Editora Reformátório: http://reformatorio.com.br/#nossos-livros

Serviço

Título: Como são cativantes os jardins de Berlim

Autor: Decio Zylbersztajn

Nº de páginas: 174

Editora Reformatório

Lançamento: 10 de junho de 2014, das 19h às 21h30

Local: Casa das Rosas

Endereço: Avenida Paulista, 37, Bela Vista, São Paulo (SP)

Preço sugerido: R$ 36,00.

 

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